5. INTERNACIONAL 12.9.12

1. OS INDECISOS VO DECIDIR
2. UMA VIDA PUTINESCA

1. OS INDECISOS VO DECIDIR
Obama e Romney tm multides de fiis, mas, para vencer as eleies, vo correr atrs dos descontentes
DIOGO SCHELP

     A conveno do Partido Democrata, realizada na semana passada na cidade de Charlotte, na Carolina do Norte, e a do Partido Republicano, em Tampa, na Flrida, sete dias antes, transformaram o ritual de confirmao de seus candidatos  Presidncia em um concurso de beleza poltico em que os jurados sero os eleitores indecisos de dez dos cinquenta estados americanos. A maior atrao do democrata Barack Obama, que no dia 6 de novembro tentar a reeleio, ser medida por sua capacidade de utilizar o carisma pessoal, o charme automtico de quem est no poder e o entusiasmo dos militantes de seu partido para seduzir um eleitorado insatisfeito com as taxas de desemprego e pessimista quanto ao futuro dos Estados Unidos. Obama  o candidato, para seguir na metfora das misses, da aparncia externa  a pessoal e a de sua campanha. J o desafiante republicano Mitt Romney ter de fazer com que os indecisos enxerguem alm do seu jeito robtico e da sua imagem de milionrio insensvel, e mostrar que  bonito por dentro, ou seja, que tem as ideias e as habilidades necessrias para tirar os Estados Unidos da pasmaceira econmica. O resultado das eleies deste ano depende de qual dessas duas qualidades vai pesar mais na deciso dos eleitores em cima do muro: a capacidade de apontar um caminho novo para os desafios econmicos, o que favorece Romney, ou o carisma e a personalidade do governante, uma prerrogativa de Obama, diz o cientista poltico Eric Heberlig, da Universidade da Carolina do Norte. As pesquisas realizadas antes do encontro democrata mostram que h um empate entre Obama e Romney. Ambos tm cerca de 47% das intenes de voto.
     Uma conveno bem-sucedida, impactante, pode ser capaz de aumentar momentaneamente em at 14 pontos porcentuais a preferncia por um candidato. J aconteceu algumas vezes. O desfile de discursos nas convenes dos dois partidos teve o objetivo de reforar os pontos fortes dos candidatos e minimizar ou desmitificar a qualidade principal do adversrio. Os republicanos lembraram que o magnetismo pessoal ps Obama na Casa Branca em 2008, mas que suas realizaes ficaram muito aqum das expectativas. O democrata aumentou a interferncia do estado na economia, com a consequente exploso da dvida pblica, mas isso no se refletiu significativamente na diminuio da taxa de desemprego, atualmente na casa dos 8%. Precisamos parar de gastar um dinheiro que no temos, disse Paul Ryan, o candidato a vice-presidente na chapa republicana. Em seu discurso na conveno democrata, Bill Clinton, cujo perodo na Presidncia  lembrado por muitos americanos como os ltimos dos bons tempos de prosperidade no pas, inverteu a questo. Clinton disse que os republicanos bagunaram os Estados Unidos na gesto de George W. Bush, e agora querem demitir Obama porque acham que em um nico mandato de quatro anos ele deveria ter sido capaz de consertar o estrago feito nos oito anos anteriores. Se voc quer uma sociedade do cada um por si, em que o vencedor leva tudo, deve apoiar a chapa republicana, disse Clinton, que classificou a dupla Barack Obama e seu vice, Joe Biden, como a dos candidatos dos valores comunitrios, da noo de estamos todos juntos
     Uma campanha presidencial americana, quando travada em torno de ideias, como  ocaso da atual, reverbera os dois pilares fundamentais que definem os Estados Unidos. No fim do sculo XVIII, j libertos do jugo ingls mas ainda em dvida quanto a que tipo de pas queriam, os fundadores dos Estados Unidos se dividiam em dois grupos. Sob Thomas Jefferson se alinhavam os defensores de um estado forte, provedor, anticlerical bem ao estilo dos ideais da Revoluo Francesa. James Madison, John Jay e Alexander Hamilton propugnavam a diviso do poder central com os estados. Eram os federalistas. Eles defenderam seu ideal de governo em panfletos apcrifos assinados com o pseudnimo Publius. Um desses panfletos, de autoria de Madison, trouxe uma at hoje insuperada lio: Mas o que  governo seno a maior de todas as reflexes sobre a natureza humana? Se os homens fossem anjos, nenhum governo seria necessrio. Se anjos fossem os encarregados de governar os homens, no seriam necessrios controles internos ou externos sobre os governos. Na criao de um governo de homens com poder sobre homens, porm, a grande dificuldade reside, primeiro, em habilitar o governo a controlar os governados: e, depois, obrig-lo a controlar-se a si prprio. Ser dependente do povo , sem dvida, a forma elementar de controle sobre o governo; mas a experincia ensinou  humanidade a necessidade de tomar precaues adicionais.
     Ao buscarem no legado histrico do pas uma resposta para definir o papel do governo na vida nacional, republicanos e democratas tentam resolver a angstia bsica. Mais de 60% dos eleitores americanos acham que o pas est no rumo errado. Essa percepo est associada  questo econmica, pois em termos de poderio militar no h razo para vislumbrar um declnio. O pas continua sendo o que mais gasta com material blico, e est construindo o USS Gerald R. Ford, o maior porta-avies do mundo, com capacidade para 75 caas, a um custo de 14,2 bilhes de dlares.

PAPO DE FAMLIA, MAS  POLTICA
     Michelle Obama entrou no palco da conveno democrata, em Charlotte, com um vestido rosa floral vibrante, que deixava  mostra seus braos tonificados e alongava sua silhueta ao mesmo tempo esbelta e curvilnea. Nos poucos minutos do seu discurso que equilibrou a louvao ao carter de Barack, como ela se refere ao marido, com espetadas sutis nos republicanos, Michelle provou que no pretende repetir a quase catstrofe da eleio passada. Na ocasio, ela foi acusada de falta de patriotismo por declarar que a possibilidade de Obama se tornar presidente fazia com que pela primeira vez se sentisse muito orgulhosa de seu pas. Pelo visto, os quatro anos ocupando o papel apoltico de primeira-dama foram uma boa escola de autocontrole.
     Na semana passada, sem comentrios partidrios e sem citaes explcitas do nome do adversrio do marido, o discurso preparado para Michelle continha crticas cidas a Mitt Romney. Quando disse, por exemplo, que tanto ela quanto Obama foram criados por famlias sem muitas posses materiais, referia-se nas entrelinhas ao fato de a trajetria de Romney, nascido em uma famlia abastada, ter sido o oposto. Michelle tambm deu o tom do embate coletivistas versus individualistas, que permeou toda a conveno democrata, ao apresentar o seu conceito do que  ser bem-sucedido nos Estados Unidos. Usando os exemplos de seu pai e da av de Obama, a primeira-dama passou a mensagem de que um empregado honesto e dedicado, ainda que no consiga obter uma ascenso social significativa,  to merecedor de crdito quanto um grande empresrio ou executivo. A inteno era passar a ideia de que a valorizao do mrito, enaltecida pelos republicanos em sua conveno uma semana antes,  uma forma de elitismo. Claro que isso  uma simplificao grosseira dos ideais dos republicanos, mas pode ser muito eficiente em uma eleio na qual o empobrecimento da populao  o tema central. Parecia que at no vestido de cor politicamente neutra (vermelho  republicano, azul  democrata) e preo modesto  cerca de 350 dlares, diante dos 2000 dlares do usado pela mulher de Romney, Ann, na conveno republicana  Michelle quis passar uma imagem de austeridade. Demagogias  parte, o discurso no foi to convincente na tentativa de mostrar que a vida dos americanos melhorou nos quatro anos de governo Obama. Mas o fato  que os marqueteiros souberam usar com maestria a presena marcante de Michelle, sem ofuscar o candidato.

COM REPORTAGEM DE TATIANA GIANINI, NATHALIA WATKINS E TAMARA FISCH


2. UMA VIDA PUTINESCA
Como o presidente russo colocou  sua disposio mais palcios pagos pelos contribuintes do que a realeza britnica, entre outras mordomias.
TATIANA GIANINI

     A opulncia dos nababos, o equivalente muulmano dos marajs da ndia no sculo XVI, deu origem  expresso nababesca, sinnimo de ostentoso, luxuoso. O estilo de vida de Vladimir Putin, que com trs mandatos presidenciais e dois de primeiro-ministro est h treze anos  frente do poder na Rssia,  to espetacular e custoso que faz por merecer um adjetivo prprio: putinesco. Segundo um levantamento concludo no ms passado por dois respeitados polticos de oposio, Boris Nemtsov e Leonid Martynyuk, Putin tem  sua disposio vinte palcios e manses, 58 avies e helicpteros e quatro barcos. Um porta-voz do governo russo informou que todos os bens pertencem ao estado e que o presidente tem o direito de utiliz-los. Seria uma boa explicao, no fossem dois fatos complicadores. O primeiro  que, com exceo da Coreia do Norte e talvez de uma ou outra monarquia rabe, no h pas no mundo em que o chefe de estado tenha o usufruto exclusivo de uma infraestrutura to grande e cara. O presidente americano, por exemplo, tem  sua disposio duas residncias oficiais e o italiano, trs. No Brasil tambm so duas, o Palcio da Alvorada e a Granja do Torto. Toda a famlia real inglesa, com seus prncipes, duques e condessas, dispe de apenas oito casas ou palcios mantidos pelo estado. O segundo motivo para suspeitar da justificativa de que as mordomias de Putin so legais  o fato de que o governo no presta conta dos gastos necessrios para mant-las. A falta de transparncia  tal que a construo de um dos palcios, situado no litoral do Mar Negro, foi mantida em segredo at agora. Avaliada em 1 bilho de dlares, com rea total de 740.000 metros quadrados, uma vincola e um cassino prprios, a imitao kitsch do Palcio de Versalhes  chamada pelos russos de manso do Putin, na falta de um nome oficial. A obra nunca esteve no oramento nacional e teria sido bancada com uma espcie de dzimo que as grandes empresas do pas pagam a Putin, segundo denncia feita em 2010 por um ex-executivo de uma das companhias envolvidas. O governo tambm no deixa claro qual  a funo ou o custo para os  cofres pblicos das nove propriedades incorporadas durante a administrao Putin  lista de moradias presidenciais. Uma exceo  o Palcio de Constantino, em So Petersburgo, que pertenceu a czares e, aps uma reforma, passou a receber visitaes tursticas e eventos oficiais.
     Nemtsov, um dos autores do relatrio sobre os bens presidenciais, disse a VEJA que comeou a fazer o levantamento depois de ter percebido, em fotos de jornal, que Putin troca de relgio de luxo como quem troca de meia. Na Rssia, o relgio  um dos maiores smbolos de status masculino. Trata-se de uma herana dos tempos soviticos, quando esse acessrio era o nico que a elite nacional podia ostentar, diz Nemtsov, que reuniu fotos de Putin usando onze relgios diferentes. O mais caro deles, um Tourbograph Pour te Mrite, da marca alem A. Lange & Shne, custa meio milho de dlares. Seria necessrio economizar o salrio de um mandato presidencial inteiro e mais um pouco para compr-lo. Pode ter sido um presente? Sim, mas no seria tico. Em democracias srias, os agrados aos presidentes no podem ultrapassar um valor predeterminado para no ser confundidos com propina.
     O patrimnio pessoal declarado de Putin consiste em um automvel Lada ano 2009, dois apartamentos, um terreno nos subrbios de Moscou e o equivalente a 180.000 dlares em aplicaes no banco. Mas a oposio diz que ele amealhou uma fortuna de 40 bilhes de dlares, o que o tornaria o quinto homem mais rico do mundo. Um feito e tanto para um ex-espio da KGB que desde a queda da Unio Sovitica s ocupou cargos pblicos. Putin, dizem seus adversrios, controla por meio de laranjas 4,5% das aes da Gazprom, 37% da Surgutneftegas e 75% da Gunvor, empresas do setor de petrleo e gs natural, os principais produtos de exportao da Rssia. Se isso for provado, a vida putinesca que o presidente russo leva deixar de ser apenas cortesia temporria dos contribuintes. 

